Por que continuo fazendo o que prometi que não faria mais?
Você já se perguntou: “Dessa vez vai ser diferente?” Talvez tenha prometido não voltar a uma relação tóxica, não aceitar injustiças no trabalho ou reagir de outra forma à crítica. Ainda assim, percebe que vive algo parecido novamente. Pode parecer falta de força de vontade, mas a psicanálise propõe outra pergunta: e se algumas repetições têm motivos que ainda não conseguimos perceber?
Freud observou que algumas experiências não ficam apenas na memória: elas continuam influenciando nossos sentimentos, escolhas e relações, mesmo sem que percebamos. Imagine alguém que cresceu buscando aprovação de uma pessoa muito crítica. Na vida adulta, ela pode se sentir atraída por relações em que precisa provar seu valor. Isso não significa escolher conscientemente o sofrimento, mas mostra como certas relações se tornam familiares; e o familiar, mesmo doloroso, pode parecer mais previsível do que algo novo.
Por isso, a repetição nem sempre aparece exatamente igual. Pessoas, lugares e situações mudam, mas algo parece permanecer: você troca de emprego e sente que nunca é reconhecido; termina um relacionamento, inicia outro e volta a temer o abandono; tenta se posicionar, mas, diante de certas pessoas, retorna ao silêncio. É como se a história mudasse de cenário, mas mantivesse alguns elementos centrais.
Perceber uma repetição é importante, mas nem sempre suficiente para mudá-la. Alguém pode dizer: “Eu sei que sempre faço isso”. O problema é que saber que algo ocorre não é o mesmo que entender por quê. Na psicanálise, o trabalho não é apenas dizer à pessoa o que fazer, mas investigar o que a repetição expressa: por que essa situação parece tão familiar? Que sentimentos surgem quando algo diferente acontece? O que está em jogo ao tentar agir de outra forma?
Ao falar sobre sua história, relações, medos, desejos e conflitos, a pessoa pode perceber conexões antes ignoradas. O que parecia “meu jeito” ou “meu destino” pode ser visto de outra forma. Então, a repetição deixa de ser apenas uma confirmação de que “sempre acontece comigo” e passa a ser outra pergunta: o que essa experiência recorrente revela sobre minha história? É aí que a análise pode abrir espaço para novas possibilidades.
Denise Costa | Psicanalista
Um olhar psicanalítico sobre afetos, relacionamentos e experiências da vida adulta.